O Bicicletário vive!

Arte de Herr Rosenbaum

 

Felix Bravo

 

diversão no bicicletário

 

É algo quase inexplicável. Há os que nomeiam este algo de ´levante´. Uma força coletiva que se irrompe em determinados momentos, quase aleatórios, mas que são, na verdade, um climax de energias acumuladas que, como um vulcão, de repente, aparecem por aí.

O Bicicletário Livre já é uma fissura ideológica – demarcada, usada e justificada!

Diversas ações estão acontecendo ali nos últimos meses. Ações livres, que são maiores que a frieza das instituições e a preguiça dos governos. O pressuposto de reconquista da cidade, de busca de um porque de se viver em sociedade, ou ainda algo no sentido de uma busca pela inebriante sensação da liberdade, tudo isso subjaz estas ações. Envolvendo diversos atores elas são obra de um mesmo pensamento. Um pensamento sem autoria e igualmente sem dono. Um pensamento perigoso: a noção de que você pode cuidar da sua vida. Que você pode determinar como quer se transportar, se alimentar ou se relacionar com os outros. Que você pode fazer o urbanismo do local onde você vive. Que você pode sinalizar a rua. Que você pode interferir na rua. Que você pode se libertar de certos rituais escravizantes e enfraquecedores. Que pode haver música e poesia na cidade. Na cidade real, é claro. Não a cidade dos espaços fechados e institucionalizados. A cidade viva. Onde a troca é imediata.

O Bicicletário é, no fundo, uma farsa. Um dado estatístico no currículo de um jovem político promissor, ambicioso, que privatizou até mesmo os pontos de ônibus da cidade. Que transformou alguns poucos respiros do concreto em espaço aberto a publicidade e sua lógica infernal. Que instalou estas marquises de propaganda por todos os lugares. Inclusive no meio das pseudo-ciclovias da cidade. Como o departamento de marketing não é bobo, sugeriram, de quebra, instalar 6 bicicletários em pontos estratégicos da cidade. Iria certamente pegar bem. Cidade ecológica. Cidade modelo. Bicicleta. Saúde. Lazer. Lero lero. Ziriguidum.

Ninguém pensou, é óbvio, no papel que estes ´bicicletários´ teriam no desenvolvimento de um plano diretor voltado a ciclomobilidade. Tampouco foi identificado com clareza o gestor destes espaços. Seria a prefeitura com seu interesse enorme pela bicicleta ou a multinacional francesa que não tem vínculos emocionais com o espaço urbano? Como consequencia os bicicletários estão aí, entregues a sorte. Quase ninguém, no entanto, reconhece estes espaços como locais para se deixar a bicicleta durante sua jornada diária. Uma banca de jornal vazia. Uma floricultura. Um posto de polícia. Tudo menos um bicicletário. É o que vai acontecer. Um dia vão tirar tudo ou transformar em algum posto de alvarás e dizer que nunca houve bicicletário algum. O jovem político segue promissor e os ciclistas seguem se arriscando com a falta absoluta de uma política afirmativa de trânsito realmente humano, ou seja (atenção urbs e diretrans, é bastante simples!) que priorize os seres humanos e não as máquinas. Que conceda prioridade aos meios de transporte que poluem menos e transportam mais gente.

O Bicicletário poderia ser autogerido pelos próprios ciclistas e simpatizantes. Poderia ter uma oficina básica de bikes. Bomba pra encher o pneu. Água pra beber. Uma programação cultural contínua. Música. Cinema. Poesia.

Isto tudo já acontece e seguirá crescendo junto com os brotinhos do Bosque de Sofia, que sobrevivem as agressões descuidadas de tantos.

Nós não queremos filosofia pela filosofia.

A filosofia quer o mundo.

O Bicicletário vive!

 

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2 comentários sobre “O Bicicletário vive!

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