A re-educação dos sentidos e a brisa no rosto de quem pedala (parte 2)

bici

Estranho paradoxo, o que se traduz no fenômeno da multiplicação dos veículos automotores a cifras absurdas: a maravilha do engenho humano volta-se contra o seu criador. Conseguimos banir da superfície da Terra os animais selvagens que visitavam à noite a periferia das nossas aldeias, e introduzimos um tigre mais feroz, mais voraz do que todas as feras.

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As legiões e legiões e legiões de mortos e mutilados no trânsito, sejam nas colisões carro a carro, sejam por atropelamento, pertencem à normalidade enferma e atormentada da nova Convenção. E não acharam até hoje o seu poeta elegíaco, nem o pastor que em estilo asiático reivindicasse, por atacado, dos púlpitos, a sua memória e o seu calvário.

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Já salta aos olhos a evidência de que o sistema econômico atrelado à matriz petroleira e automotiva, como os dinossauros do K/T, agoniza, e com ele o planeta, ferido de uma doença mortal: o gigantismo, com o mesmo grave sintoma de sempre: a falta de imaginação.

À força do imperativo keynesiano da administração da demanda (dá-lhe propaganda!), à força de guardar a coesão e o dinamismo das cadeias produtivas, caminha velozmente para o abismo – e nisto guarda uma solidariedade verdadeiramente igualitária, pois promete levar-nos a todos para o mesmo buraco.

Até mesmo em seus próprios termos, o sistema titubeia: “fliperama” extremamente primitivo, o máximo de segurança que propõe são as caríssimas duplicações das vias, e uns poucos aperfeiçoamentos cosméticos para a diminuição dos efeitos dos impactos. Nem sequer se cogita da aplicação massiva dos sistemas de posicionamento eletrônicos, ou da redução drástica da escala dos veículos, ou do engenheiramento das ruas inteligentes, que se valesse dos recursos espertíssimos da digitalidade…

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Na recente crise financeira, quando ruiu o castelo de cartas das aplicações derivativas, e a conta foi apresentada secamente às populações estupefatas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, um bom sujeito, apressou-se a garantir crédito e recursos públicos às montadoras de automóveis…para que pudessem continuar vendendo tanto como nos dias da farra financeira. Uma semana depois, o governador José Serra, de São Paulo, sem dúvida um bom sujeito, repetiu o gesto: botou à disposição das montadoras, para que não parassem de vender no mesmo frenético andamento, bilhões de reais do erário do Estado. E isso incondicionalmente, sem sequer extraírem alguma concessão desses grandes trustes, como o melhoramento dos filtros de emissão, ou dos recursos de segurança pessoal dos passageiros…

Nossa conclusão não deve ser moralista. Ambos os estadistas, diferentes que sejam os seus estilos, são prisioneiros da mesma lógica: o motor da economia, a indústria automotiva, não pode parar. Nossa conclusão deve ser política: não vamos esperar iniciativa alguma dessas lideranças, no sentido de uma mudança de rumo, por menor que seja. Eles são meros operadores do sistema, com uma interface sorridente e bem-falante para melhor persuadir e arrastar as multidões, sem que nisso vá alguma censura. É como as coisas funcionam dentro do sistema…

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Donde virão as mudanças? O pessoal da Bicicletada tem muito a propor, neste sentido. Quem são eles? São guerreiros do bem, armados apenas de suas bikes e de uma idéia central brilhante: a bicicleta é a melhor crítica à cultura do automóvel.

E olha que ela tem pedigree e ascendentes tão bons ou melhores, do ponto-de-vista histórico e tecnológico, do que o seu fumacento “colega” e “concorrente”.

Está nos livros: assim como o motor à combustão, a bicicleta surge no Ocidente como produto industrial de uso massivo nos anos que Barraclough define como o grande salto tecnológico das economias do Oeste – entre 1867 e 1881. Em vez das descobertas e inventos pontuais da Primeira Revolução Industrial, era agora o tempo da aplicação sistemática dos métodos laboratoriais de descoberta, de pesquisa e desenvolvimento, a resultar na invenção do telefone, do microfone, do gramofone, da telegrafia sem-fios, da lâmpada elétrica, do transporte público mecanizado, dos pneumáticos, da máquina de escrever, das tintas para a impressão em massa de jornais, das primeiras fibras sintéticas, da seda artificial, dos primeiros plásticos sintéticos…

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Tão genial foi a invenção da bicicleta que, nos umbrais do novo milênio, ela conserva quase integralmente as linhas originais. Ficou ainda mais leve e resistente com a aplicação de novas ligas metálicas, de fibras desenvolvidas pela pesquisa astronáutica, freios excelentes, dispositivos de iluminação ágeis e eficazes…

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Desde os seus primeiros dias, a bicicleta fundiu sua história com a história da classe trabalhadora. Resulta incompreensível, por isso mesmo, a hostilidade que podemos dizer sistemática dos motoristas de ônibus de Curitiba para com seus irmãozinhos de rua, os ciclistas. Verdadeiros homicídios têm sido cometidos nas canaletas do sistema Expresso. Culpa dos “caroneiros” irresponsáveis? Onde está a ciclo-faixa que a lei manda escrever no chão do asfalto de todas as vias de circulação pública de veículos?

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O Código Nacional de Trânsito reconhece a bicicleta como veículo de transporte urbano individual, com direito irrefutável a trafegar em faixa própria, à direita do espaço de rodagem das ruas. Desenhar ciclo-faixas é dever indeclinável do administrador municipal. Assegurar a integridade física, a incolumidade do ciclista, acompanha este indeclinável dever, cujo cumprimento se traduz também pela educação dos motoristas de toda índole, no sentido de respeitar o sujeito que segue pedalando a caminho de casa, do trabalho, da escola ou de qualquer outro destino. É lei, tanto quanto pagar o IPTU ou votar para prefeito e vereador, devolver o troco ou respeitar a autoridade. Seu cumprimento não depende de disposição psicológica favorável dessa autoridade, nem é favor político nem nada. Cumpra-se!

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A Bicicletada de Curitiba, saudada por alguns analistas como a grande novidade política dos últimos anos, nada tem de movimento político organizado. Move-se por impulso, por agregação voluntária, por amor à vida, sem chefes, sem comandos, sem carimbos nem cartórios, em direção a uma das condições da plena cidadania, o simples direito de ir-e-vir.

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Depois de todos os argumentos em favor de uma política pública em favor da difusão e viabilização da bicicleta no dia-a-dia da cidade, exaustiva e incansavelmente apresentados às autoridades curitibanas, em diversas e reiteradas ocasiões ao longo de três anos de atuação da Bicicletada, continuam falando mais alto, para os ciclistas, em favor das nossas magrelas, aqueles outros argumentos menos persuasivos em política ou administração: a brisa no rosto, a luz natural, o equilíbrio elegante e atrevido, a pedalada que vai mais além…e a certeza de que a História está do nosso lado.

JAQUES BRAND

Curitiba, novembro de 2008

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5 comentários sobre “A re-educação dos sentidos e a brisa no rosto de quem pedala (parte 2)

  1. Peters disse:

    Dá-lhe Jaques!
    Como sempre mandando super demais!
    As autoridades têm a obrigação de retirar dos motoristas profissionais dos transportes públicos a autorização implícita que lhes conferem para matar.

    Obs.: pela lei, a direita é para os veículos lentos e pesados. A turma do “sai da frente que eu quero passar” é que insiste em empurrar todo mundo para o canto direito!

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  2. Gica Naconaski disse:

    Salve Jaques!

    Estive no Japão dias atrás e é lindo lindo de viver sobre duas rodas por lá. Ciclo faixas por todas as avenidas, estacionamentos para as magrelas por todos os pátios de fábricas e pessoas muito bem resolvidas naquela harmonia oriental. Motores dos autos e impulsores dos pedais juntos, movimentando as cidades, aos milhares. Bem bom! Grande beijo!

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  3. Luiz Renato Munhoz disse:

    E ai Jaques, quanto tempo

    O que vc anda fazendo, eu virei jornalista, moro em Campo Largo. Depois de tanta política, a ecologia na prática parece que me persegue agora, pois arranjei um sítio e tenho a perspecitva de plantar algo lá. A terra está “parada” faz um ano, mas pretendemos ativá-la logo.
    Um gole de rum e um grande abraço
    Munhoz

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