Renato Perissinotto – Bicicleta e política

bicicletada encontra o prefeito Beto Richa no DIA SEM CARRO de 2007

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Publicado em 30/09/2008

Em outra coluna comentei que existem várias formas de fazer política que vão além dos partidos e das eleições. Nos últimos dias tivemos, bem aqui em Curitiba, um exemplo desse tipo de atividade política alternativa, que não espera os partidos e as lideranças tradicionais para apresentar suas propostas. Refiro-me à Bicicletada curitibana, movimento que ocorre há mais de três anos em nossa cidade, cujo objetivo é defender a bicicleta efetivamente como meio de transporte alternativo ao automóvel. Digo “efetivamente” porque todos nós sabemos que as ciclovias de Curitiba não podem ser levadas a sério como vias de locomoção pela cidade.

Apesar de ser um movimento espontâneo, sem líderes e chefes, segundo os seus próprios organizadores, a bicicletada não peca por ingenuidade, pois sabe que qualquer intervenção na cidade deve, para se traduzir em política pública, trafegar pelos caminhos legítimos da política democrática. E é bom que assim seja, pois não seria adequado sugerir que toda e qualquer pessoa tem o direito de interferir no espaço público como bem entende, sem que essa intervenção passe pelo crivo do debate político e das instituições decisórias autorizadas. Se assim fosse, o espaço público ficaria à mercê de qualquer vontade autoritária que desejasse expor aos transeuntes a sua subjetividade.

Seria interessante, porém, que o movimento ensaiasse uma reflexão crítica sobre si mesmo. Há todos os indícios de que a bicicletada expressa os anseios de uma classe média que pode, em função de suas condições materiais privilegiadas e de seu apego à causa ecológica, ver a bicicleta como uma opção ao carro. Seria muito interessante que esse movimento se aliasse aos outros grupos sociais para os quais a bicicleta, ao contrário, é uma necessidade e, não raro, dado o preço do transporte coletivo em Curitiba, a única saída possível. Que se pensasse, portanto, em ciclovias (e manifestações) não apenas nos bairros que compõem o anel central da cidade, mas também, com a mesma qualidade e segurança, nos bairros periféricos.

Renato Perissinotto é cientista político e escreve às terças-feiras.

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