Pedalando pela ecologia

Europa: Pedalando pela ecologia

Por Claudia Ciobanu, da IPS

Um grupo de jovens de diversos países europeus participam de uma travessia em bicicleta da Bulgária até a Turquia, para mostrar ao mundo que as viagens e a boa vida são possíveis sem grande consumo de energia. Quinze pessoas (da Bósnia, Bulgária, Croácia, Espanha Portugal e outro punhado de países) iniciaram no último dia 4 na capital búlgara, Sofia, o Ecotopia Biketour 2008. Após percorrerem cerca de 600 quilômetros dentro da Bulgária e mais mil na Turquia, o que vai durar cerca de um mês, o participantes chegarão ao seu destino final, a cidade turca de Sinop, no Mar Negro, na região setentrional desse país. Espera-se que outros ciclistas se integram ao grupo durante o percurso.

Esta travessia ciclística, cujo nome Ecotopia brinca com as palavras ecologia e utopia, acontece desde 1990 em diferentes rodas européias. Os participantes se dirigem para a conferência internacional Ecotopia, que inclui debates e outras atividades sobre questões ambientais e de justiça social. Entre os assuntos abordados desde a primeira reunião, na cidade alemã de Colônia em 1989, figuram o emprego juvenil, arte e ativismo político, migrações e as fontes de energia alternativas. Este ano, a conferência acontecerá entre 9 e 23 de agosto e se concentrará nos problemas energéticos.

Os organizadores optaram pela cidade de Sinop por ser o local escolhido para a construção de uma central atômica. Os participantes são contra a produção de energia nuclear para enfrentar a crise e propõem, como alternativa, reduzir o consumo, melhorar a eficiência e promover formas de geração de baixo impacto ambiental. Os participantes da travessia ciclística consideram possível viajar e viver com escasso consumo de comida utilizando produtos comprados em barracas ou casas às quais são convidados, preparam sua comida com o que compram nas localidades que visitam e, em geral, promovem o estilo de vida “faça você mesmo”.

Os participantes também procuram organizar entre eles uma comunidade sobre bases igualitárias enquanto se encaminham ao destino final. Isto significa que as decisões são tomadas por consenso, além do uso de uma moeda especial, o “eco”, com um tipo de cambio diferenciado: os ciclistas dos países mais ricos desembolsam mais para pagar os gastos da travessia do que os das nações pobres. Estima-se que o custo diário seja de 15 ecos, equivalentes a US$ 12,7 para os europeus ocidentais e de US$ 6,37 para os orientais. “Queremos demonstrar que viver desta forma, com base na igualdade, não é uma utopia”, disse à IPS Ivan Gregov, um dos ciclistas, durante uma parada em Velingrad, na região sudoeste da Bulgária.

Um elemento-chave do Ecotopia Biketur é que os participantes organizam o participam de atividades e demonstrações que abordam as preocupações das comunidades que visitam durante essa viagem. Na Bulgária, protestarão contra a construção de uma central nuclear em Belene, norte do país. Enquanto pedalarem através das montanhas Rodope, realizarão ações para chamar a atenção para um projeto de infra-estrutura turística em grande escala em áreas naturais protegidas. Além disso, na cidade de Krumovgrad, organizarão uma jornada de informação sobre os riscos do uso de cianureto na exploração mineira, técnica que será usada nessa área na extração de ouro.

Quando chegarem à costa do Mar Negro, participarão de um protesto contra o oleoduto burghas-Alexandroupolis, um controvertido projeto em razão dos riscos ambientais e por ter sido rejeitado em um referendo local. Também tentarão conscientizar sobre o negativo impacto de usinas térmicas como a planejada em Ayancik, localidade próxima de Sinop. A maioria das atividades tem por objetivo chamara a atenção para as formas com que os projetos de desenvolvimento acontecem na região.

Embora os participantes da travessia ciclística afirmem que são recebidos amistosamente e com curiosidade em todos os lugares aonde chegam, a mensagem que procuram divulgar nem sempre é igualmente bem-vinda. “É muito difícil convencer as pessoas a reduzirem o consumo de petróleo”, disse o croata Gregov. “As sociedades da Europa oriental são muito consumistas. Poucos estão dispostos realmente a abandonar seus hábitos de emprego intensivo da energia”. Gregov, que já participou de outra edição da travessia, escreveu em um blog que “a cultura do progresso global já se assentou nos países da Europa oriental, mas não se percebe os efeitos negativos e os custos que deverão ser pagos”.

A seu ver, “os erros cometidos pela Europa ocidental devido à sua implacável política de desenvolvimento se repetem nas nações do leste. Temos que elevar a conscientização pública para mudar esta estratégia de crescimento”, mas o Ecotopia Biketour procura deixar um exemplo antes de pregar sobre como as pessoas devem viver. “Objetiva conseguir uma comunidade sustentável”, disse outro participante. “Trata-se de pensar sobre o impacto ambiental nas decisões cotidianas. E não ser muito fascista a respeito dos assuntos em que alguém se especializa, porque outras pessoas podem considerar que outras questões são importantes”, acrescentou.