Na FIEP, sustentabilidade só para empresário (não) ver

Um amigo que usa a bicicleta como meio de transporte em Curitiba – não como esporte, nem como lazer – passou na semana passada por uma situação vexaminosa em decorrência de sua opção. O local: a FIEP, Federação das Indústrias do Estado do Paraná. A ocasião – e aqui vem a grande ironia: um evento sobre sustentabilidade!

Desse evento resultaram recomendações voltadas para o tema. Segundo consta em notícia na página da entidade: “Curitiba gera 80 proposições para o avanço da sustentabilidade nos negócios”.

Usando o veículo mais sustentável dentre todos os existentes, a bicicleta, nosso amigo foi simplesmente proibido de usar a entrada principal da FIEP. Para ter acesso ao auditório, foi obrigado a subir um enorme aclive, fazer a volta toda e entrar pelos fundos. Para completar a humilhação, até encontrou um paraciclo, mas inadequado para a finalidade a que se destinaria. Consultada a entidade para apresentar alguma explicação ou justificativa para a proibição de bicicletas pela entrada principal, não houve nenhuma resposta.

Já especulamos sobre as possíveis razões para essa restrição contra os ciclistas, sem conseguir atinar com alguma explicação racionalmente satisfatória. Será que o ciclista em si não combina com as instalações e o status das pessoas que frequentam o local, ainda que eventualmente? Será que eles pensam que a bicicleta é veículo de pobre ou não honesto ? Que enfeia a paisagem? Se for isso é bom que os administradores do local se atualizem, pois é um pensamento completamente retrógrado, superado, fora de moda.

Em vista desse critério contra o usuário da bicicleta, cabe a pergunta: sustentabilidade é algo para ser discutido, mas não praticado? Sustentabilidade fica bem no marketing, mas não vale pra vida real?

Se a própria entidade que reúne o empresariado tem esse preconceito, pergunta-se: qual empresa vai acreditar que deve construir bicicletários e vestiários apropriados para o empregado usuário da bicicleta? Qual empresa vai acreditar que deve até gratificar quem usa a bicicleta, por enxergar essa opção como uma atitude conservacionista e sustentável? Qual empresa vai tentar influir o poder público a estimular e proteger o ciclista e desestimular o transporte individual privado?

As vaias vão também para a URBS, que trata discriminatoriamente na Rua da Cidadania da Matriz os cidadãos de bicicleta, impedindo-os de ter acesso a serviços que presta para os cidadãos motorizados em instalações públicas. Parece uma proibição derivada do mesmo preconceito absurdo e demodé.

Espera-se que algum dia essas entidades mudem de atitude. Enquanto isso, que fique público como agem efetivamente. Pois o vexame real é pretender falar de sustentabilidade e agir contrariamente a ela. Talvez nada conste, entre as 80 proposições, a respeito de transporte individual sustentável. Então, desde já, fica a proposição 81 da Bicicletada para o avanço da sustentabilidade nos negócios: tratar bem ao empregado que usa a bicicleta como seu meio de transporte. Tratar bem ao cliente que usa a bicicleta como seu meio de transporte.

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